"O duro e o rígido conduzem para a morte. O flexível e o delicado conduzem para a vida" - Máxima Taoísta

História do Kung Fu

O duro e o rígido conduzem para a morte.
O flexível e o delicado conduzem para a vida.
- Máxima Taoísta.

:: Os primeiros relatos
:: Huang Ti e a arte marcial
:: O início
:: De Buddhajiva a Bodhidharma
:: De Bodhidharma a Shaolin
:: Segunda transição do Kung Fu
:: Norte e Sul da China
:: Kung Fu do Norte
:: Kung Fu do Sul
:: O nascimento do Wushu

Os primeiros relatos

SUN TZU, o primeiro estrategista da China resumiu opensamento marcial chinês, amais de 2.500 anos, com o seguinte dito: “A habilidadesuprema dentro das artes marciais não consiste em obter uma centena de vitórias numa centena de batalhas, mas sim em dominar o inimigo sem combater”. De forma mitológica ou não, a arte marcial (wushu) já existia na China a milhares de anosantes.

Foi travada uma grande guerra (no período dos Soberanos Míticos - 4000 a 2000 a.C.) entre o Deus da Violência, Chi You, e o Imperador Amarelo, Huang Ti. Depois de várias batalhas sem vencedor, Huang Ti (imperador amarelo) se retirou em meditação.
Depois de três dias e três noites o Imperador Amarelo recebeu a visita de Xuan Nu (mulher de negro), uma fada com cabeça de mulher e corpo de pássaro. A fada se apresentou: sou a Dama de Negro, qual é o seu desejo? Huang Ti respondeu que gostaria de vencer todas as batalhas. Xuan Nu mostrou ao imperador todos os segredos da arte marcial, tais conhecimentos foram propícios para que o Imperador Amarelo compreendesse a natureza do wushu - arte de combater – e assim, derrotar o Deus da Violência.  

Huang Ti e a arte marcial

Segundo escritos antigos, Huang Ti – o Imperador Amarelo – foi o primeiro a fazer uso do wushu ou “kung fu” para fins marciais, durante a batalha acontecida no ano de 2674 a.C., quando exércitos organizados por nobres da época resolveram se juntar na tentativa de derrubar o imperador (muitos mestres e especialistas acreditam que os exercícios da arte já eram praticados várias centenas de anos antes). Sangrentas batalhas ocuparam toda a China, e as forças do imperador prevaleceram.
Segundo relatos históricos, a vitória do imperador foi atribuída a um exército especialmente treinado numa arte marcial (wushu) que imitava os gestos dos animais das florestas chinesas. Esta foi a primeira vez que o wushu (kung fu aqui no ocidente) foi mencionado historicamente e que comprova sua existência bem antes dessa época; pois nenhuma arte marcial faz sucesso de um dia para o outro, e que tudo indica que o kung fu já era praticado há muito tempo.
A arte marcial Kung Fu é um sistema refinado de luta criado ainda na Antiga China. Segundo relatos resultados de pesquisas e estudos existem (catalogados) centenas de estilos, cada um com suas peculiaridades particulares. Alguns surgiram da observação de animais em seu habitat natural (buscando alimento ou lutando pelo seu território), outros surgiram dos elementos diversos da natureza, e ainda há aquelas técnicas que carregam (desde sua criação ou adaptação) o nome de família de seu criador etc.
Apesar da existência de relatos documentados comprovando a existência do kung fu a mais de 46 décadas (4600 anos), não se sabe a data exata, nem o nome do seu criador; tais dificuldades em afirmar datas e nomes se deve ao fato de que há poucas provas documentadas que comprovem tais acontecimentos. Naquela época, a maioria desses acontecimentos era sempre passada de forma oral, de geração a geração.

O início sobe

Ossos e cascos de tartarugas (da Dinastia Shang – ou Xang) foram encontrados contendo registros autênticos de kung fu, embora acredita-se que a arte tenha sido criada muito antes disso. Armas como machados, facas e flexas de pedra foram desenterradas em recentes escavações. Huang-Ti, o Imperador Amarelo já usava espadas de cobre para o combate.
Ch'uan Fa (arte do punho), como era denominado o Kung Fu no início, tornou-se popular, depois que os guerreiros de Chou (China Ocidental) derrubaram a dinastia Shang.
O Jiaoli, espécie de luta romana (do período Chou) – o Arco e Flexa e Corrida de Carruagens foram enumeradas como Esporte Militar. Esse período ficou conhecido como Era da Primavera e do Outono, quando o kung fu foi chamado de Chuan Yung.
Foi no período dos Estados Guerreiros ou “Estados Rivais” que surgiram grandes combatentes estrategistas. Esses guerreiros acreditavam que um forte exército poderia ser construído com a prática do kung fu. "Exercícios de luta romana e ataque fortalecem o físico do guerreiro", revela Sun Tzu, em A Arte da Guerra.
Historiadores relatam que (naquele período) uma mulher de nome Yuenu – perita na arte da espada – foi convidada pelo imperador Goujian (dos grandes mestres naquele tempo, boa parte era mulheres), para mostrar seus conhecimentos da Arte da Espada.
Foi nas dinastia Chin que artes marciais chinesas floresceram. Os lutadores costumavam se defrontar com chifres de boi nas cabeças. Nessa época o kung fu foi chamado de Chi Chiao. Várias armas (a maioria teve origem em ferramentas da trabalho) passaram a fazer parte do kung fu, que começo a receber influência do Taoismo, princípio filosófico que tem como base o Tao (ver Tao Te Ching – o livro do caminho e da virtude).
Ge Hong, médico e filósofo taoísta, com base em pesquisas de seu antecessor Hua T’o, incorporou ao kung fu exercícios para trabalhar a respiração conhecidos pelo nome de chi kung (Qi Gong). Hua T’o (antecessor de Ge Hong), com ajuda de um sacerdote taoísta chamado Chin Ch’ien havia desenvolvido um método de trabalho corporal chamado Wu Chien Shi (Wu Qin Xin = Jogo dos Cinco Animais) que incluia a imitação de cinco animais. O nome desses animais divergem um do outro, segundo alguns pesquisadores; alguns afirmam que o wu qin xin tem relação com os Cinco Animais de Shaolin: Dragão, Tigre, Leopardo, Serpente e Garça.  

De Buddhajiva (Futuo ou Batuo) a Bodhidharma

Segundo relatos, depois de quase cinco Séculos d.C. (dinastia do Norte e do Sul) Buddhajiva - Batuo ou Fotuo em chinês -, um monge indiano chegou à China (alguns apontam o ano de 495 d.C.) para pregar o budismo. Mais tarde, um de seus seguidores, o imperador Xiaowen ordenou a construção de um monastério no monte Shao Shi, na província de Loyang, hoje Honan. Devido a sua localização num imenso bosque, o templo foi batizado de Shaolin, que quer dizer jovem bosque, ou ainda, jovem floresta.

De Bodhidharma a Shaolin

A ordem social chinesa foi corrompida quando o principal regime iniciou os ataques à área central do país, durante as dinastias do Norte e do Sul. A situação despertou um crescente interesse do povo chines pelos estudos religiosos. Os acontecimentos propriciaram a chegada de muitos autotidades religiosas no país, uma delas foi Bodhidharma (Ta Mo em chinês) considerado pelos budistas como o 28º patriarca do budismo. Apesar de fontes aparentemente verdadeiras, alguns estudiosos (modernos estudiosos) relutam em aceitar a existência de Ta Mo (Bodhidharma). Não se sabe se ele era indiano, ou de origem persa, apesar da história citar Bodhidharma como sendo de origem indiana.
Bodhidharma (também conhecido como Ta Mo, Dharuma e Daruma Taishi) foi o terceiro filho de Sugandha, rei do Sul da Índia. Bodhidharma foi um membro da casta guerreira e viveu sua infância fna província budista do Sul de Madras, chamada Kanchipuram (ou Kancheepuram). Bodhitara, posteriormente batizado de Bodhidharma estudou meditação budista com Prajnatara.
Com a morte de seu mestre Prajnatara, Bodhidharma viajou para a China. Alguns historiadores afirmam que era uma vontade do seu mestre, outros dizem que Bodhidharma foi à China para tentar reerguer a filosofia budista que se encontrava em declínio.
Algumas obras afirmam que o monge budista chegou à China durante as dinastias do Norte e do Sul, e depois teria viajado para o reino de Wei. Quanto a data exata, alguns autores apontam o ano de 525 d.C. – a data mais provável, - outros mencionam datas como: 520 d.C., 526 d.C., 527 d.C.
Bodhidharma esteve na corte de Liang Wu Ti, notoriamente um defensor do budismo, em Ching Ling (atual Nanquim). Ao ver o monge budista, Liang Wu Ti indagou: “Eu trouxe as escrituras de seu país para o meu. Construí templos de grande beleza e fiz com que todos abaixo de mim aprendessem as grandes doutrinas budistas. Que recompensas eu receberei na próxima vida por isso?”. "Nenhuma!", responde o monge (numa referência à crença budista de que se você fizer alguma coisa esperando recompensa, pode esperar nada). Furioso, o rei espulsou Bodhidharma, que se dirigiu para o Honan.
Conta a lenda que Bodhidharma atravessou o rio Yuang Tse escanchado numa vara de bambu. Chegando em Shaolin de Honan (ou Henan), Bodhidharma meditou por nove anos diante de uma parede. Como fruto desta nova experiência surgiu o budismo Ch’an.
Como o Shalin era um refúgio para o povo, supõe-se que muitos fugitivos da justiça buscasse abrigo no templo. Muitos deles eram guerreiros hábeis que tornavam-se monges. Como já foi dito, Bodhidharma criou uma série de exercícios com a finalidade de fortalecer e despertar os monges que, na maioria das vezes, dormiam durante os longos períodos de meditação.
O fato de Bodhidharma ter criado uma série de exercícios não significa que ele foi o criador do kung fu Shaolin. Nenhuma de suas biografias o menciona como introdutor (criador) de técnicas corporais de combate; tambem não se pode afastar a hipótese de uma influência na introdução de técnicas de combate, seja na sua época seja mais tardiamente.
Certo é que não tardou muito e em pouco tempo o templo Shaolin ganhou fama tanto pela ascensão do budismo quanto pelo desenvolvimento técnico do kung fu. Foi nesta época que as artes marciais chinesas se bifurcaram em dois ramos distintos: o boxe Neijia (interno) e o boxe Waijia (externo).

A segunda transição do kung fu sobe

Foi durante na dinastia Yuan, dinastia não-chinesa – mongol -  que o Shaolin kung Fu iniciou a segunda transição, época em que um monge chamado Chueh Yuan (também chamado Hung Yun Szu) aperfeiçoou o sistema para reunir 72 formas ou técnicas. Mais tarde, as 72 técnicas foram aperfeiçoadas por Pai Yu-feng e Li Cheng, da província Shansi. Além dos 72 movimentos (técnicas) de Chueh Yuan, eles também estudaram as 18 séries criadas por Bodhidharma (conhecidas como ‘As 18 mãos de Lo Han’) e fundiram os métodos num grupo de 170 técnicas, o que hoje é a base do atual estilo Shaolin.
Os 170 métodos (ou técnicas) continham a essência de cinco animais: Serpente – trabalha a capacidade de fluir o Chi; Leopardo – trabalha a força; Garça – trabalha os tendões; Dragão – trabalha a força do espírito; e Tigre – trabalha a força dos ossos.
O estilo Shaolin ramificou-se em cinco linhas diferentes. Esta ramificação deve-se ao fato de existir cinco templos em vários distritos. O Templo Shaolin Honan deu origem à mais quatro templos: Emeishan – ou Omeishan; Wutang – ou Wudang;  Fukien e Kwangtung – ou Guandong.
No sul (Cantão), as cinco variedades de Kung Fu Shaolin desenvolveram-se em sistemas familiares: Hung, Lau, Choy, Li e Mo:

Hung Gar - Fundado por Hung Hei Gung. Faz uso da força externa e de exercícios de tensão dinâmica. Desenvolve os músculos e bases fortes;
Lau Gar – Sitema fundado por Lau Soam Ngan. Trabalha com métodos naturais de médio alcance;
Choy Gar – Vem da família Choy. Seu fundador é Choy Gau Yee. Seu ponto forte é a seu método de ataque a longo alcance;
Li Gar - Li Yao San é o fundador. Li Gar é um sistema que faz uso de ataques de médio alcance;
Mok Gar - Fundado por Mok Ching Giu. É um sistema que faz uso de socos de curto alcance e técnicas de chute poderosos.

Norte e Sul da China

Com todos o dados históricos, está claro que o kung fu não iniciou no templo Shaolin, como muitos acreditam. Tambem não se pode negar que a arte floresceu alicerçada pela influência Shaolin. Foi nesta época, que o kung fu passou a ser dividido em Shaolin do Norte e Shaolin do Sul; o rio Yuang Tze serve de linha de demarcação entre o Norte (mandarim) e o Sul (cantonense.
O Norte da China apresenta um relevo mais montanhoso e um clima bem mais frio que a região Sul chinesa. O povo do Norte costumavam usar roupas mais grossas para se protegerem do frio. Tinham pernas forte pelo fato de viverem numa área geografica cheia de montanhas.
Já o Sul do país apresenta uma geografia com terreno mais plano, sem tantas montanhas. Tem abundância de rios e chuvas. É uma região bem mais quente que o Norte.

Kung Fu do Norte

Trata-se de estilos criados e /ou treinados no Norte da China. A região tem uma geografia de solo mais firme, o que permite melhor base para chutes, saltos e bases largas. São estilos famosos pela capacidade de chutar a longa distância, com rapidez e potência. O kung fu do Norte possui um trabalho de perna elegante, os movimentos são rápidos e cheio de beleza.
As pernas alcançam longas distâncias, buscam deslocar o corpo do lutador em direção ao adversário, com velocidade e precisão. O trabalho de perna assemelha-se ao jogo de pernas de um esgrimista. É no tronco que é gerada as forças de rotação e extensão. As pernas são transformadas numa espécie de catalputa.

Kung Fu do Sul

São estilos criados e /ou praticados na região do Sul da China, região de charcos, plantações de arroz e terrenos menos firmes que os do Norte. O kung fu do Sul não faz uso de saltos, pontapés ou qualquer outra técnica acrobática, como fazem os estilos do Norte. O kung fu do Sul usa posturas baixas, trabalhos de mão firmes e potentes, além dos chutes baixos e rápidos; são caracterizados pelo poder dos membros superiores, principalmente em situações que exigem força explosiva em distâncias muito curtas.
As bases de pernas são mais baixas nos estilos do Sul, mais plantado ao solo, adaptando-se a situação geográfica da região sul daquele país. O kung fu do Sul preza por ataques mais baixos, sempre priorizando as pernas e o baixo ventre, e em menor quantidade; efantiza-se o uso dos braços através de socos (punhos), garras, gancho, dedos, técnicas de arremessos e agarramentos mais rígidos. Os estilos do Sul visam um combate mais rápido, sem demora.  

O Nascimento do Wushu sobe

Com o Kung Fu Shaolin enrraizado na China, a arte diversificou-se em muitos estilos familiares distintos. Durante a dinastia Sung houve um enorme surgimento de sociedades de Kung Fu, porém, poucas promovendo boas ações. Dentre elas podemos citar Dragões Negros ou as Tríades. Com o poder veio a corrupção, e muitas delas voltaram-se para a criminalidade.
Era comum ver um mestre de Kung Fu de uma determinada escola (gun) ou província vagando pelos vilarejos, experimentando sua habilidade. Além de lutas mortais, havia muitas exibições públicas com o intuíto de atrair novos adeptos.
Na dinastia Ming, o Kung Fu foi conhecido historicamente como chi yung e a arte cresceu, especialmente no Sul da China. Os estilos denominados de Shaolin do Sul concentravam-se no templo Shaolin de Fukien.
Ch'en Yuan-ping viajou ao Japão e introduziu o Ch'in-na, uma forma, ou técnica de manipulação das juntas que enriqueceu muito o Jiujitsu (jujutsu) japonês. A maior documentação histórica desta era ocorreu quando Qi Jiguang, um conhecido general, compilou um livro tratando de 16 diferentes estilos de exercícios com as mãos nuas e aproximadamente 40 técnicas envolvendo armas como a lança e bastões-de-sessões. Qi Jiguang criou, ainda, uma série de teorias e métodos de treino, contribuindo assim, com a arte do kunk fu.
Com a queda da dinastia Ming os Manchus estabeleceram a dinastia Ching, derrubada em 1911. Aí surgiram sociedades secretas com a Sociedade da Lótus Branca, amplamente enfatizada no Taoísmo. Tratava-se de organizações com o objetivo de derrubar os Manchus ou afastar as influências européias ocidentais de seu país.
Algumas das várias sociedades secretas pregavam a seus membros a imunidade contra balas de armas de fogo, o que acabou provocando a chamada Rebelião dos Boxers. A rebelião não teve sucesso e, naturalmente, o kung fu perdeu parte do respeito adquirido. Nesta mesma era surgia os métodos de kung fu interno (nei jia).
Depois da queda dos manchus veio a era comunista. Foi nessa época que o kung fu passou a chamar-se Wu Shu / ou Kuo Shu (arte marcial / arte nacional). Muitos soldados eram treinados pelos seus chefes guerreiros sob métodos de Kung Fu, reconsquistando, assim, o respeito e a dignidade da arte.
Em 1949, foi fundada a República Popular da China. De lá para cá muito tem sido feito para promover o kung fu. Os antigos métodos de luta voltaram a ser usados, e outros novos criados. Muitos mestres se uniram com o intuito de restabelecer e combinar sistemas antigos.

Mas foi somente no final da década de 60 (1960) que o kung fu foi mostrado ao Ocidente, tornando a arte cada vez mais popular em todo o mundo.

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